Media por Lá

Olhando com intenções comparativas para aquilo que é o estado da Educação para os Media junto do público sénior dentro e fora de Portugal, é encontrar realidades diferentes, preocupações dissonantes e evoluções diferenciadas. Se no caso português as iniciativas de um modo geral podem-se caracterizar por ser incipientes ou pontuais, na dimensão internacional as medidas existentes já permitem alguns avanços na  complexa tarefa de entendimento desta área.

Com efeito, o elemento chave que parece distinguir nesta temática Portugal dos restantes países, reside no grande volume de produção académica, científica e empresarial que em países como a Inglaterra, o Canadá, a Suécia, os EUA ou até mesmo o Brasil, tem vindo a ser publicada com o objectivo de explicitar de que modo o público sénior se relaciona com os meios de comunicação.

Tendo como pano de fundo estas considerações atentemos a alguns exemplos práticos que atestam esta situação e sobretudo o seu crescente impacto na realidade mediática internacional. Estes estudos têm perspectivas de abordagem diferentes, embora se possa dizer que, mais uma vez, a questão que coloca lado a lado o público com mais de 65 anos e as novas plataformas de comunicação, continua a prevalecer.

A esse propósito recorda-se aqui o estudo levado a cabo na Universidade de Sydney de Shima Sum, Mark. R.Mathews, Mohsen Pourghasem e Ian Hughes institulado " Internet Technology and Social Capital: How the Internet Affect's Senior's Social Capital and Wellbeing. Neste estudo, que seguiu a metodologia do inquérito por questionário conclui-se, entre outras coisas, que as pessoas com mais de 65 anos utilizam a internet com diferentes propósitos como a busca de informação, o entretenimento, a compra online ou a comunicação. Com efeito, o ponto central desta investigação residiu na observação do impacto diverso da Internet no capital social e no bem estar do público sénior, em função do uso que este dá à tecnologia.

Entendida como uma faca com dois gumes, este estudo olha para a internet como uma arma poderosa, que pode em simultâneo ajudar ou prejudicar. Para ser útil, todavia, o público sénior deve ser capaz de entender de que modo pode utilizá-la e quais as suas potencialidades. 

Na mesma linha de investigação, encontra-se o estudo levado a cabo por Roberto Pecino da Universidade de Sevilha intitulado " Envelhecimento e uso das tecnologias da informação e comunicação".

Atendendo ao fenómeno do envelhecimento da população mundial e à preponderância da população envelhecida nas economias e sociedades actuais, este estudo tenta desmistificar alguns estereótipos dominantes no âmbito desta relação dicotómica. Através da metodologia do inquérito por questionário a 160 idosos,  alunos de uma Universidade Sénior espanhola, concluiu ese mesmo estudo que mais de 50% deste público utiliza a internet e quase 100% tem telemóvel. Ao mesmo tempo, observa ainda  que este público atribuiu reduzida relevância às potencialidades destes equipamentos e que as razões mencionadas para essa situação prendem-se sobretudo com a não necessidade, falta de interesse, ou custo elevado destas tecnologias.

Uma outra investigação, desta feita levado a cabo na Suécia pela Internet Infraestructure Foundation, conclui que mais de 1,3 milhões de suecos com mais de 50 anos não usam e nem estão interessados em usar a internet. Neste caso em concreto, as questões apontadas relacionam-se com o seu custo elevado e ainda com a inadaptação dessas tecnologias às limitações físicas e visuais dos idosos. Este estudo verifica ainda que a maior parte dos idosos que não utilizam a internet têm baixos níveis de educação.

No plano internacional, a representação mediática dos idosos também é uma temática importante. Assim, refira-se a investigação de Pedro Celso Campos da Universidade Estadual Paulista. Tendo por objecto de estudo "A Visibilidade do Idoso nos Meios de Comunicação", a investigação analisa quatro jornais espanhóis: ABC, El Mundo, El País e La Razón. Este trabalho de investigação releva a importância que estes meios de comunicação concedem à pessoa idosa e de que forma se pode perspectivar a formação do jornalista num contexto mais amplo e integrado na ecologia dos media, atendendo à questão do envelhecimento populacional.

Numa mesma base analítica encontra-se, ainda, o estudo percursor levado a cabo nos EUA, em 1995, por Meredith Tupper da Universidade de South Florida  que averiguou da representatividade dos idosos na publicidade transmitida em horário nobre nas principais cadeias televisivas norte-americanas. Este estudo para além de inovador, serviu o propósito de averiguar a prevalência de estereótipos que continuam a dominar os meios de comunicação no que diz respeito aos idosos.

Mencione-se que em matéria de literacia ,os EUA é dos países que se encontra na vanguarda do conhecimento e da experiência prática. A título exemplificativo, refira-se a organização SeniorNet que considerando a importância de colocar em regime de proximidade os idosos e as novas tecnologias de informação e comunicação, disponibiliza uma lista de centros onde os mais velhos podem desenvolver o primeiro contacto orientado com as novas tecnologias de informação e comunicação. Aproveitando mesmo as potencialidades do meio, são disponibilizados alguns cursos de online em regime de e-learning.



Finalizando, referem-se outras iniciativas de âmbito mais prático que têm vindo a ser promovidas no plano internacional e que, quiçá, poderiam ser interessantes aplicadas no plano português com os necessários ajustes.

Fale-se em primeiro lugar do espaço Age UK, um espaço que serve os idosos ingleses e que se destaca por reunir um conjunto de informações de índole diversa e potencialmente interessantes para o público sénior.



Este espaço vocacionado para o público sénior denota especial importância à relação dos idosos e dos media e oferece aos seus visitantes a possibilidade de aceder a um conjunto diverso de guias tais como: "Making the most of the Internet" (Tirar o máximo partido da Internet), "Internet Security: Staying safe Online" (A Segurança na Internet, mantenha-se a salvo na Internet); "Buying a computer" (Comprar um computador); " Setting up an e-mail account" (Criar uma conta de e-mail); "An introduction to scanner" (Introdução aos scanners) e muitos outros.

Este site que se afirma como um verdadeiro portal de informação útil para os idosos distingue-se ainda pelas suas iniciativas inovadoras como a Semana do Amigo Online, onde os idosos inscritos podem apreender um pouco sobre os serviços de partilha de fotos, chats de conversação online e redes sociais e ainda pelos seus programas de voluntariado em que jovens e adultos se oferecem para partilhar os seus saberes informáticos com os mais velhos.

O exemplo do Age UK configura apenas um exemplo prático da preocupação com a literacia mediática que tem sido observável na Inglaterra. A esse propósito não se pode olvidar o importante e percursor estudo desenvolvido pela OfCom em 2006 a propósito da literacia mediática do público sénior.

Um outro exemplo importante e que poderia igualmente ser interessante de conceber adaptado à realidade mediática portuguesa, é o desenvolvimento de videojogos especialmente concebidos para idosos.

Esta ideia originalmente desenvolvida na Universidade do Oeste de Santa Catarina, por Naiara Sebben, Aníbal Lopes Guedes e Fernanda Lopes Guedes, é um bom exemplo de como é possível passar da teoria à prática e aproveitar as potencialidades das novas tecnologias para estimular os idosos nos planos da lógica, razão, movimento , favorecendo  a sua integração na sociedade da informação e comunicação.

Os inúmeros exemplos aqui reunidos concretizam apenas uma rápida recolha de ideias, boas ideias, daquilo que no plano internacional tem vindo a ser desenvolvido no âmbito da literacia mediática do público sénior. Estes exemplos, para além de configurarem importantes exercícios de literacia, servem também o propósito de mostrar que a sua aplicabilidade no contexto português é não só importante, mas também possível.

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